terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Inclusão Escolar: o dilema de conjugar escola e família.



Falar sobre Inclusão Escolar é bastante complexo. Nem sei exatamente por onde começar, pois sou professora, psicopedagoga e mãe de uma criança autista. Se por um lado eu entendo as dificuldades do educador em praticar a Inclusão em sala de aula, por outro lado sou mãe e sinto a urgência desta prática dentro da escola.

Poderia narrar minha experiência como mãe que luta pela Inclusão Escolar, como tenho feito nos outros textos, relatando os acontecimentos mais doloridos e outros felizes deste caminho. Ou partir para a minha experiência muito maior como professora, pois tenho mais experiência na Educação formal escolar do que neste papel de mãe.

Como mãe e como professora, sou defensora ardente da Inclusão Escolar. Mesmo antes de ter o Léo, sempre acreditei no caminho da Inclusão. Crença esta que não diminuiu mesmo passando por diversas dificuldades para conseguir incluir meus alunos. Nunca neguei a possibilidade de Inclusão, mesmo sabendo das minhas diversas limitações pessoais tanto na esfera do conhecimento necessário quanto das infraestruturas oferecidas pelas escolas em que trabalho ou onde já trabalhei. Mas vejo que é um pouco mais fácil criticar as questões de inclusão escolar no papel de professora, pois não sou responsável pelo aluno por toda sua vida. Tenho sim um papel fundamental em sua formação, mas ele é momentâneo e transitório. Mas ser mãe e criticar a Inclusão é lutar contra o corporativismo escolar, é tratar de um tema que você gostaria de denunciar e escancarar, não apenas com questões relacionadas às crianças, mas como nós, mães e pais, somos tratados. No entanto, fazer esse tipo denúncia pode nos trazer problemas, uma vez que essas pessoas são as mesmas com quem você deixa seu filho durante horas do dia, e é preciso tomar cuidado para que uma crítica, mesmo construtiva, não interfira na relação entre eles e seu filho.

Vou elaborar uma série de textos sobre Inclusão Escolar, onde trarei as minhas 3 versões: Professora, Psicopedagoga e Mãe. Não me acovardarei falando apenas como profissional, pois lutar por Inclusão como Mãe é mais dolorido, devido à falta empatia por parte dos profissionais envolvidos, que muitas vezes confundem a Inclusão de um aluno com deficiência com uma mera inserção, eliminando os benefícios da primeira em nome de uma praticidade e de comodismo que não trazem nenhum benefício pedagógico à criança.

Se, por um lado, as escolas reclamam que os pais não participam, que apenas colocam seus filhos e acham que a escola tem a obrigação de dar conta da situação, dizendo que “os pais não participam da vida escolar”, quando se deparam com uma família participativa, reclamam que a mãe é “implicante”, “superprotetora”, e que “não deixa a escola trabalhar”. É um paradoxo, que seria resolvido se houvesse empatia com a vida destes pais e familiares que criam uma criança deficiente. Claro, não são todos os profissionais da Educação que pensam desta forma, mas uma grande parte ainda faz este tipo de discurso.

Como eu sei disso? Já trabalhei em 11 escolas públicas, já trabalhei da pré-escola ao ensino médio, em todas as séries, e também já lecionei em 3 escolas particulares, fundamental e médio. É importante salientar que, em todos esses locais, sempre encontrei um grupo de professores e de funcionários que pensam e agem de forma diferente, acolhendo as famílias e acompanhando as crianças especiais. E são esses profissionais que desempenham um papel fundamental para a construção da Inclusão da maneira correta. Alguns destes bons profissionais se guiam apenas pelo tato ou pelo bom senso, e realizam um bom trabalho dentro do que é possível, pois encontram pouca ou nenhuma infraestrutura para realiza-lo. Há outros que vão a fundo, estudam sobre a deficiência que o aluno tem, observam o aluno, preparam atividades diferenciadas, mas com objetivo e metodologia, avaliam seu trabalho e o desempenho que a criança teve, observam o que pode melhorar e o que mais precisam estudar. Tem gente que adora um bom desafio. Estes profissionais sonham, cantam, são pessoas felizes dentro e fora da sala de aula, amam o que fazem, e por isso se emocionam com cada conquista do aluno especial como se fosse sua. E, muitas vezes, é dele também. Eu tenho alguns colegas de trabalho com essas características e já trabalhei anteriormente com profissionais assim.

Muitos trabalhos acadêmicos sobre a Educação contemporânea destacam a tríade Escola, Família e Comunidade. Diversas pesquisas na área pedagógica apontam a importância da participação da família no processo da Inclusão Escolar. Algumas escolas compreendem isso e acolhem pais, recebendo suas informações sobre as demandas das crianças deficientes. Já outras escolas acham os pais intrusos ou castradores de seu trabalho. Há uma insegurança, pois parece que a família está ali não para ajudar, mas para espionar e reclamar. Usam um discurso pronto sobre a participação da família, mas não conseguem trabalhar em parceria. Pelo contrário, podem se tornar até mesmo adversários.
E quem sai perdendo é a criança, que vai receber mais estigmas por ter uma família “assim ou assado”. Além de ser extremamente triste, pois nós pais só queremos ajudar os profissionais a entenderem como podem fazer para atender as necessidades de nossos filhos.

A Inclusão Escolar de forma alguma deve ser uma guerra entre família e escola, mas nem sempre essa parceria é possível.

Para você que é professor e não tem filho especial, saiba que nós, pais de filhos deficientes, somos inseguros, uma maioria sofre de depressão e transtornos de ansiedade, mas também somos muito dedicados, pois passamos por situações na vida, antes de chegar na sua escola ou na sua sala de aula, que você nem imagina. O que queremos – ou melhor, o que precisamos – é nos sentir seguros. Não transfiram para os pais a responsabilidade do governo em relação às escolas públicas, pelo fato de não promoverem capacitações, ajustes na estrutura dos prédios, funcionários, etc. Nem transfira para os pais a falta de investimento das escolas particulares para questões de Inclusão escolar. Todos têm sua parte nesta tarefa, e apenas trabalhando em conjunto a Inclusão plena pode acontecer. A família pode somar nesta construção, pois é ela que tem a maior quantidade de informações sobre a criança/aluno em questão, e esse conhecimento pode vir a ajudar a enfrentar as barreiras impostas pela falta de recursos ou de apoio. Temos que lutar para evoluir nessa questão, não apenas remediar. Existem muitos casos em que podemos ir muito longe na direção da Inclusão Escolar, apenas tomando alguns cuidados básicos e praticando constantemente o diálogo.

A escola onde o Léo estudou neste primeiro ano após o diagnóstico é pública. É uma ótima escola, com ótimos profissionais. Mas são humanos como nós, e que também podem falhar. Em alguns casos eles reconheceram os erros, mas em outros houve um claro corporativismo, com o intuito de minimizar esses problemas. Mesmo com eles me afirmando que isso não aconteceu, tem coisas que são muito nítidas, só não vê quem não quer ou não tem interesse em assumir e aprender.

A principio nos acolheram muito bem. Mas foi na primeira situação grave, que não necessariamente envolveu a questão do meu filho ser especial ou neurotípico (falarei desta situação em outro texto), o tratamento mudou. O diálogo ficou travado. Por vezes, ficava confusa, pois a professora relatava por escrito uma situação, e a direção/coordenação dizia outra. A coordenadora, a vice-diretora e uma das secretárias sempre foram ótimas comigo, sempre me atenderam prontamente, mas ainda assim faltou colocar o diálogo família/escola/professor de maneira mais suave, de modo que a comunicação fluísse com maior harmonia, pois todos nós tínhamos apenas o objetivo: o bem estar e o desenvolvimento do Léo.

O papel da Coordenação e da Direção devem mediar o diálogo, não interferir apenas para evitar possíveis conflitos. Muitas vezes conflitos são necessários, e podem ser facilmente resolvidos se estivermos juntos, e com um objetivo comum de promover a Inclusão.

Pais, não deixem de lutar, de falar, telefonar, mesmo que às vezes isso pareça chato. Nós temos que lutar por eles, somos as vozes de nossos filhos. Não temos que ver a escola como um adversário, mesmo que muitas vezes algumas pessoas se posicionem desta forma em relação a nós. Temos que tentar sempre o diálogo. Caso seja necessário, busque ajuda na Supervisão de Ensino da escola de seu filho. Geralmente nesses lugares existem responsáveis preparados para supervisionar a Inclusão Escolar e resolver conflitos. E, se achar que por algum motivo deva fazer um boletim de ocorrência, faça! Se por acaso o corporativismo surgir, você terá ao seu lado o Conselheiro Tutelar e todo um Fórum que defende Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Esse ano foi intenso. O Léo se desenvolveu muito. Foi um ano de muita adaptação para todos nós. E não quero culpar os funcionários e professores da escola, pois de certa forma eles também estão aprendendo.
O Leonardo passa 4 horas em terapias todos os dias antes de ir para a escola pública regular. É uma criança que vem com uma demanda diferente de outras crianças especiais. Foram estas terapias, as atividades complementares que faço com ele em casa, que foram responsáveis pelo seu salto no desenvolvimento. Claro, a escola, como fator de inclusão, teve um papel importante, e também não atrapalhou o processo terapêutico nas etapas que o Léo foi alcançando.

Ano que vem (2016) ele voltará para a escola se comunicando através das PECS (Sistema de comunicação por troca de figuras ou Pictures Exchange Communication System). Nossa grande preocupação é se vão respeitar o uso e o aprendizado do Leonardo que esse método proporcionou. E, para isso, sem sombras de dúvidas, teremos que afinar o diálogo, inclusive com as terapeutas do Léo se aproximando da Escola. Afinal, viver com o um autista não é só ensiná-lo, mas também aprender com ele e para ele.

O processo de Inclusão Escolar está começando agora, e ainda há muito por se fazer.  Os papéis ainda estão confusos. Qual papel do terapeuta na escola? Qual o papel dos pais? Qual papel da professora de apoio ao aluno especial? E a própria escola, enquanto Instituição Pública, que precisam de verbas que não dependem apenas da boa vontade do diretor, mas de uma série de burocracias da administração pública e gestões de governos, que na maioria das vezes emperram, dificultando o trabalho de todos os profissionais envolvidos?

Escuto muito: “Mas ninguém me ensinou na faculdade a lidar com autistas, surdos, cegos... Como querem que agora eu saiba? ”. Quando digo que a inclusão está começando agora é porque somos nós, professores, pais, psicopedagogos, diretores, coordenadores e orientadores, que seremos os pioneiros na sua realização. É essa geração, que hoje ocupa cargos ligados à educação, que construirá os meios e os métodos. Nós estamos no palco da História. Somos nós que ensinaremos os futuros professores com nossa experiência. Afinal, se nos doarmos a realizar as inclusões necessárias, construiremos um vasto conhecimento, para no futuro transmitir e ensinar aos jovens professores que virão.

Hoje, na sala de aula do Léo, tem uma estagiária que faz o apoio para ele. Não sei até que ponto ela se deu conta da oportunidade inestimável de aprender que está à sua frente. Mais que ensinar o Leonardo, ela poderá aprender sobre ele e, consequentemente, para si e para os próximos alunos autistas que virão. Poderá no futuro falar de cátedra sobre Inclusão Escolar, relatar sua experiência e até fazer dela algo científico, publicando e divulgando para os demais. Para isso, não somente a estagiária em questão, mas todos os envolvidos na questão da educação inclusiva, temos que tomar fôlego e enfrentar não só as dificuldades de não conhecer a criança ou as metodologias, mas principalmente a própria falta de infraestrutura que a escola hoje apresenta.E, de forma alguma, levar mais esta dor de cabeça para a família.

 Com a família discutiremos as questões da criança, como poderão ajudar. Uma mãe jamais deveria ouvir ou ler frases do tipo: “Tenho X alunos mais seu filho, e não vou trata-lo diferente pois tenho meus outros alunos! ”. Atenção educadores: os pais sabem de suas dificuldades, mas peçam ajuda e não transfiram para a família um problema que é de ordem escolar e, além de tudo, um direito da criança e da família. Pais de crianças especiais já recebem muitos nãos da sociedade. A escola deve acolher, e auxiliar na resolução deste problema. Peçam apoio para a família no que ela pode lhe oferecer para diminuir a falta de infraestrutura, mas não faça este tipo de discurso. Isso leva muitas mães a abandonarem seus empregos, sua vida de mulher, para cuidar destas crianças, e isso não é solução para a criança, para a mãe, e nem para a escola, pois terão aquelas mães que, como eu, vão apostar na inclusão e vão exigir que ela seja realizada, mesmo que doa ouvir frases levianas, jogadas de forma inconsequente.

São muitas as lutas. Eu estou diante de todas elas, nas versões dialéticas em que me apresento.
Receber um filho especial é encarar a militância de lutar por ele, pelos seus direitos, pela sua saúde, pelos seus espaços e pela sua autonomia que, para muitos de nós já sabemos que terá limites, mas não somos nós que temos que pôr as barreiras. Ao contrário, temos que fazer a nossa parte para que eles superem as dificuldades que os limites físicos ou mentais impõem, e ajudá-los a superar as barreiras construídas socialmente.

Tenho certeza de que o Leonardo veio para ensinar. Este ano, de diferentes formas, ele encantou e ensinou muita gente. Eu lutei, chorei, gritei, escrevi e até me calei por ele. E tive tudo isso de outras pessoas. A escola teve que aprender a lidar comigo também, afinal não é só nas teorias pedagógicas que a família faz parte do processo educacional.


No próximo texto abordarei a difícil troca da escola particular para a escola pública, não porque fui atrás de melhor Inclusão Escolar, mas porque as terapias são particulares, e oneram demais nossa renda, reduzindo nossas opções.  E que mesmo com tantos percalços no caminho da Inclusão, não me arrependo da mudança. Como disse, tudo é aprendizado, e alguns valores são por demais baseado em morais capitalistas, e quando nos desprendemos podemos ver o quanto é rico o trabalho dos profissionais da educação pública. 


6 comentários:

  1. Parabéns Amanda pela iniciativa de escrever sobre a educação, direito de todos, um tema tão apaixonante e que pressupõe identificar desafios e construir possibilidades.
    A partir das suas ricas vivências de mulher cidadã, mãe de um aluno autista, professora, gestora da coisa pública,seguramente terá contribuições importantes para esta construção coletiva que é garantir direitos.
    Talvez uma ideia seja organizá-las a partir destes referenciais de vivências. ressaltando aspectos importantes e desafios de cada posição e ao final, uma série de sugestões de amarrações dos pontos que contribuiriam para esta rica construção coletiva.
    O processo é mais rico que os resultados, a inclusão é apenas um dos objetivos das relações na Escola, importante para ampliar aquisições, romper barreiras e ampliar a participação social. bjs

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  2. Nossa Amanda quantas verdades ditas neste post. A escola e a família não podem e nem devem travar um cabo de guerra, elas devem ser aliadas e compartilharem cada descoberta que irá favorecer a todos envolvidos. Você também disse algo que ja presenciei dos dois lados, profissionais que se queixam de não ter aprendido isso ou aquilo na faculdade,e profissionais que buscam por conta própria esse mesmo conhecimento porque querem fazer parte dessa primeira geração de profissionais que irão gerar caminhos e meios para os que virão.
    Parabéns pelo texto!

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  3. Amanda tenho certeza que aprenderemos muito com seus textos. O cotidiano familiar e escolar ainda apresentam uma lacuna que precisamos superar, justamente pelos motivos que você apresentou. Nem sempre é a falta de iniciativa das partes diretamente envolvidas mas, principalmente a falta de ouvir o outro/a. Não 'sabemos' o caminho e muitas vezes'temos' medo de ouvir. Felizmente renovo a fé na certeza de superarmos muitas dificuldades, quando acompanhamos experiências como a sua. Obrigada.

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  4. Eu considero desumano a exclusão de uma criança com necessidades especiais,imagino quantas familias estão passando por isso agora.

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  5. Eu considero desumano a exclusão de uma criança com necessidades especiais,imagino quantas familias estão passando por isso agora.

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  6. Isso mesmo Amanda! Continuaremos juntos em 2016. Conte sempre comigo, na(s) escola(s), em casa, onde for! Beijinhos Renata

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